Cia. de Teatro Fábrica São Paulo estreia O OUTRO PÉ DA SEREIA no SESC Avenida Paulista

 

Com trilha sonora de Chico César e direção de Roberto Rosa, o espetáculo - baseado no romance homônimo do escritor moçambicano Mia Couto - é resultado de um ano de pesquisa da companhia, contemplada pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro no primeiro semestre de 2008. A peça fica em cartaz na Unidade Provisória do SESC Avenida Paulista de 16 de maio a 28 de junho de 2009. O projeto contempla, ainda, encontro com o escritor, que acontece no final do mês.

 

Contemplada com o projeto �Memórias de Outro Mar� pela 13ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo � no primeiro semestre de 2008 � , a Cia. de Teatro Fábrica São Paulo, após um ano de pesquisa, apresenta o espetáculo O Outro Pé da Sereia, baseado no premiado romance homônimo do escritor moçambicano Mia Couto. A peça, dirigida por Roberto Rosa e com música-tema criada pelo compositor Chico César, estreia no dia 16 de maio, sábado, às 21 horas, na Unidade Provisória do SESC Avenida Paulista e fica em cartaz na mesma unidade até o dia 28 de junho.

 

A temporada contará ainda, na última semana de junho, com uma palestra do autor Mia Couto, que logo depois segue � para ser homenageado � para a segunda edição do Festival de Teatro da Língua Portuguesa (FESTLIP), no Rio de Janeiro, do qual a Cia. Fábrica São Paulo também participa.

 

O Outro Pé da Sereia, pela Cia. de Teatro Fábrica São Paulo

Após vinte anos refugiada num lugar chamado Antigamente, Mwadia Malunga retorna para Vila Longe, sua cidade natal, a fim de achar um local para guardar uma imagem de Nossa Senhora encontrada na margem de um rio. Ao voltar para a vila, no entanto, descobre como o tempo e a guerra transformaram as pessoas, que aguardam, agora, a chegada de uma brasileira, representante de uma ONG cujos fundos visam a combater a pobreza na África.

 

Em outro plano, que se passa em 1560, uma caravela portuguesa faz a primeira incursão católica para o litoral de Moçambique. A bordo estão o jovem padre Manuel Antunes e o jesuíta D. Gonçalo da Silveira, que carrega consigo uma imagem de Nossa Senhora, benzida pelo Papa, e que tem por objetivo catequizar o imperador do Monomotapa. Morto o jesuíta, a estátua da santa será deixada com seus restos à beira de um rio, para não contaminar o solo.

 

Construída sobre o cruzamento de tempos históricos e das memórias de seus personagens, O Outro Pé da Sereia mostra como a chegada dessas três mulheres � a imagem de Nossa Senhora, Mwadia Malunga e a brasileira � mudará o cotidiano de Vila Longe. Achar um lugar para elas é achar um lugar para um passado que muitos desejam esquecer. Identidade, memória, história e questões ligadas ao continente africano nos dias atuais são alguns dos grandes temas deste espetáculo.

 

O processo de pesquisa � Moçambique e Vigotski

O projeto Memórias de Outro Mar pode ser compreendido em duas grandes áreas: o desenvolvimento da atual dramaturgia � baseada na história de Moçambique e na literatura de Mia Couto � e a continuação da pesquisa sobre a formação do ator � baseada, hoje, na obra de Vigotski.

 

Ambos os campos de conhecimento foram pesquisados intensamente pelo grupo ao longo dos últimos meses e contaram com ciclos de palestras � realizados no fim de 2008, no CCSP �, encontros com refugiados e estudantes africanos no Brasil, oficinas sobre musicalidade e instrumentos africanos, entre outras atividades.

 

Vigotski e a Formação do Ator da Cia. de Teatro Fábrica São Paulo

O trabalho de formação do ator foi iniciado pela Cia. Fábrica há quatro anos, com a leitura das obras de autores como Jung e Bachelard. Atualmente, esta pesquisa prossegue com o estudo do pensamento de Lev Semionovich Vigotski (1896-1934), um dos mais inovadores e respeitados psicólogos russos, cujas reflexões alcançaram também outras áreas, como a filosofia, a linguística e a pedagogia.

 

Vigotski também escreveu sobre teatro � um de seus primeiros trabalhos se chama A Tragédia de Hamlet, o Príncipe da Dinamarca � e entre suas amizades estavam os diretores Constantin Stanislavski e Sergei Eisenstein. São as ideias do psicólogo sobre memória, emoção e formação do sujeito que marcam, atualmente, a pesquisa do grupo Fábrica, auxiliada por integrantes do Grupo de Pesquisa Pensamento e Linguagem (GPPL), da Unicamp.

 

Mia Couto na pesquisa da Cia. de Teatro Fábrica São Paulo

A dramaturgia da Cia. de Teatro Fábrica São Paulo, por sua vez, está baseada no romance O Outro Pé da Sereia, do escritor moçambicano Mia Couto, e nos estudos sobre a história recente de Moçambique. O grupo, que se reuniu no início de 2008 com o escritor, encontrou na sua obra não apenas um rico universo cultural, mas também uma série de questões ligadas ao trabalho de formação do ator: memória, história e construção de ambas pelo discurso, cerne das teorias psicolinguísticas de Vigotski.

 

A chave de união entre o trabalho de formação do ator e a dramaturgia de Mia Couto é justamente o encontro da memória com a história. A memória como construção de uma história pessoal, recepção subjetiva de forças objetivas: sociais e econômicas. Por outro lado, a história é encarada como saga coletiva, reconstituída a partir das lembranças individuais: o que fica (pessoal) daquilo que acontece (coletivo). Nesse sentido, o escritor moçambicano é um hábil observador da realidade de seu país e seus textos aspiram � além do caráter universal � a recuperar também essa memória regional � muitas vezes oral � abafada, até a independência, em 1975, pelo colonialismo português.  

 

Da mesma maneira, o espetáculo O Outro Pé da Sereia visa a esse movimento entre memória-história, onde dramaturgia, atuação e encenação abrem espaço para o tempo da memória acontecer e desvendar a história e seus processos.

 

O escritor Mia Couto

O escritor moçambicano Mia Couto nasceu em 1955, na cidade de Beira, e é um dos autores africanos mais lidos e reconhecidos em seu país e no exterior. António Emílio Leite Couto � seu nome de batismo � ou Mia Couto, como é conhecido, foi jornalista e, hoje, além de escritor, atua como biólogo em Moçambique. Já recebeu diversos prêmios literários, entre eles o prêmio de literatura da cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, outorgado em agosto de 2007 por O Outro Pé da Sereia.

 

Em abril daquele ano, ele já havia recebido o Prêmio União Latina de Literaturas Românicas, anunciado em Roma, pelo mesmo título. Mia foi o primeiro africano distinguido pelo prêmio, destinado às obras escritas em línguas latinas. Além disso, Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, de 1992, é considerado uma das melhores obras na história da literatura produzida na África no século XX.

 

Para mais informações sobre a Cia. de Teatro Fábrica São Paulo acesse o site www.fabricasp.art.br.

 

(Fábio Salem � Cia. de Teatro Fábrica São Paulo � abril/2009)

 

 

Para roteiro

O OUTRO PÉ DA SEREIA Estreia dia 16 de maio, sábado, às 21 horas, no Espaço Décimo Segundo Andar. . Temporada - De 16 de maio a 28 de junho. Sexta a domingo às 21 horas. Direção: Roberto Rosa. Elenco: Ed Moraes, Fernando Bezerra, Lina Agifu, Luanah Cruz, Marília Carbonari, Mônica Augusto. Dramaturgia: Fábio Salem Daie e Lina Agifu. Produção: Adriana Patrício. Cenografia e Figurino: Chris Aizner. Assistência de figurino: Camila Fogaça. Iluminação: Roberto Rosa e Décio Filho. Sonoplastia: Tunica Teixeira. Tema musical: Chico César. Ingressos - R$ 20,00 (inteira); R$ 10,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino). R$ 5,00 (trabalhador no comércio de bens e serviços matriculado no SESC e dependentes). Capacidade � 70 lugares. Duração � 80 minutos. Não recomendado para menores de 14 anos.

 

UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA � Avenida Paulista, 119 � Estação Brigadeiro � Fone: (11) 3179-3700. www.sescsp.org.br. Ar condicionado e acesso para deficientes. Estacionamento conveniado � R. Leôncio de Carvalho, 98. � R$ 7,00 pelo período de 4 horas.