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O Processo
Estreia dia 21 de março,
às 21 horas, no Teatro do SESC Santana, o espetáculo
O Processo, baseado na tradução do original de Modesto
Carone (Prêmio Jabuti) para o texto de Franz Kafka,
com direção e adaptação de José Henrique e cenário de
Hélio Eichbauer. Em cena, Tuca Andrada interpreta o
protagonista Josef K. e contracena com mais oito atores - Sílvia
Monte, Roberto Lobo, Mariana Oliveira, Alexandre Mofati, Antonio
Alves, Paula Valente, Rogério Freitas, Thaís Tedesco.
O Processo é a
história de um cidadão comum, que ao acordar em seu trigésimo
aniversário está detido sem motivo aparente. Durante um ano, Josef
K. procura obsessivamente compreender os motivos de sua detenção,
mas suas buscas não encontram respostas diante de um "tribunal"
totalmente inacessível, irracional e absoluto.
Sobre a direção e a montagem
José Henrique, diretor e também autor da adaptação para o palco, apresenta uma encenação fiel à obra kafkiana, que por se tratar de texto inacabado guarda os seus mistérios, próprios de Kafka e assumidos pela direção. "Existem, ao longo, do romance, incoerências temporais ou de nomes, mas não se pode saber se foram intencionais ou fruto do abandono da obra pelo autor. Mantivemos na montagem algumas das coisas ‘inexplicadas’, como personagens que aparecem e desaparecem sem que se entenda bem a sua função. O estranho está presente o tempo todo”, conta o diretor. O próprio programa da peça foi confeccionado no formato de cartões avulsos, organizados dentro de um envelope, que podem ser lidos aleatoriamente e reorganizados conforme o desejo do espectador, aludindo à forma como os originais do livro foram deixados por Kafka – em envelopes sem numeração, apenas com os títulos dos capítulos.
O cenário é composto por oito
estantes de aço, móveis e fixas, com caixas de arquivos e processos
inspirados no ambiente forense. As estantes se movem e formam
desenhos diferentes que representam os diversos lugares que Josef K.
percorre, sob iluminação em tons azulados que remete ao universo
onírico da obra. "É um cenário simbólico e construtivo, pois a
composição das estantes, de certa forma, lembra as curvas das ruas
medievais de Praga e a burocracia dos processos amontoados que não
acontecem", explica Hélio Eichbauer, que assina o cenário da
montagem.
O
convite ao cenógrafo, feito pelos produtores José Henrique e Sílvia
Monte, surgiu de uma particularidade importante, como explica
Sílvia: "Convidamos o Hélio não só por ser o grande artista que é,
mas também por ter estudado cenografia e arquitetura cênica com o
grande mestre Josef Svoboda, em Praga, cidade natal de Kafka e onde
presumivelmente se passa a história. E Hélio, com 50 anos de
carreira, executou seu primeiro cenário para um texto de Kafka".
Para representar as dezenas
de personagens que passam pela história de Josef K. (Tuca Andrada),
oito atores se revezam e fazem a mudança de personagem conforme
trocam de adereço sobre um figurino básico, neutro e impessoal. A
figurinista Daniela Vidal uniformiza o grupo vestindo todos
os atores em ternos pretos, à exceção do protagonista, que se
apresenta de terno cinza. No decorrer do espetáculo, os atores
retiram de dentro das diversas caixas-arquivos, espalhadas pelas
estantes, acessórios e adereços que compõem a identidade dos seus
muitos personagens. A idéia é mostrar que vidas são arquivadas e
desarquivadas à medida que o processo se desenrola.
Tuca
Andrada conta que construir o personagem Josef K. foi um desafio e
que, para o ator, ainda se trata de um personagem em construção.
“Josef K. é um quebra-cabeças, um caminho com muitas vertentes,
muito fácil de um ator se perder. Ele pode ser lido de inúmeras
maneiras dependendo do que a direção propõe, e o José Henrique me
deixou livre para escolher o meu caminho. Josef K. é um homem
racional que se perde dentro dos labirintos daquele tribunal e vê
sua racionalidade ser jogada no lixo. Desde o início um homem
condenado, um animal pego numa arapuca e que luta inutilmente para
sobreviver. Não aceita e não entende as regras daquele tribunal pois
sempre cumpriu todas as regras a que foi submetido, mas agora está a
dois passos do cadafalso e só lhe resta cumprir seu destino”, diz
ele.
Como nasceu a
encenação
A idéia de adaptar Kafka para o
teatro surgiu em 2005, no Teatro na Justiça, projeto promovido há
dez anos pelo Departamento Cultural da Escola da Magistratura do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), que se
propõe a refletir conceitos de justiça por meio do teatro. José
Henrique, responsável pela direção dos espetáculos do projeto, fez
a adaptação do romance. “Convidamos, então, o ator Tuca Andrada para
fazer Josef K., além de outros atores com quem costumamos
trabalhar. Na ocasião, realizamos duas apresentações ainda sob a
forma de leitura dramatizada, que foram aclamadas pelo público em
salas lotadas”, conta a atriz e produtora Silvia Monte, que, ao lado
de José Henrique, é idealizadora do Teatro na Justiça.
Para a adaptação, José Henrique
consultou várias traduções do livro em português, inglês, francês e
italiano, além do roteiro escrito pelo dramaturgo inglês Harold
Pinter para a versão cinematográfica de David Jones (Inglaterra,
1993). Das traduções existentes para o português a de Modesto Carone
(Companhia das Letras, 1997) se destaca. “A tradução de
Carone - é muito bem cuidada, tem uma bela introdução, explicações
detalhadas sobre a obra e busca reproduzir as transposições,
estruturas de língua que Kafka usava diferentes do alemão
tradicional, num uso peculiar do idioma ao estilo do que fazia
Guimarães Rosa com o português, além de trazer publicados em anexo à
obra trechos que o escritor tinha riscado nos originais. Por isso
foi ela a escolhida para servir de base para a montagem”, conta o
diretor.
A intenção nesta montagem é
quebrar o estigma desta ser uma obra difícil, pesada, hermética e
intelectualizada. No trabalho de adaptação, houve preocupação em não
endossar a idéia de que Kafka seja exclusivamente o
‘escritor-cabeça’ quase sempre retratado, como conta o diretor José
Henrique. “Há uma mítica imensa sobre Kafka em geral e O Processo
em particular. Todos os setores do conhecimento humano se apressaram
em conclusões sobre o significado de O Processo e sobre o que
é ou não é ‘kafkiano’. Fugi do lugar comum do ‘peso’ do discurso de
Kafka. A obra tem toda a densidade filosófica do autor, mas não é
pelo caminho da obscuridade e de tornar aquilo algo complicado de
entender que se chega à sua profundidade. A nossa história é exposta
de maneira clara, é um Kafka acessível a qualquer pessoa”.
Para isso,
a direção procurou também resgatar o humor corrosivo do autor
tcheco. “Sempre tive a sensação sobre O Processo de um livro
bem-humorado. A começar por ser obra de autor judeu, e a cultura
judaica, uma cultura de muito humor. É a obra de um autor que tinha
todos os motivos para rir das próprias desgraças. Sabe-se por
relatos históricos que Kafka chorava de tanto rir quando lia para os
amigos trechos da sua obra, e o espetáculo resgata esse humor. Kafka
usa de um humor caótico, às vezes pendendo para o nonsense,
quase como os irmãos Marx. Mas o humor não é incompatível com o seu
significado superior. A obra não é uma comédia, mas faz uso forte da
comicidade para chegar ao seu efeito tão devastador", afirma José
Henrique. “Modesto [Carone] elogiou muito isso na nossa adaptação.
Ele sempre achou tudo o que via adaptado sobre O Processo
sombrio, soturno, pesado, ninguém usava esse lado bem humorado”,
comenta.
A atualidade da obra
Embora se possa reconhecer no
romance o ambiente da Praga Imperial do começo do século 20,
trata-se de uma obra universal e atual. Muitas situações e
personagens da trama são claramente identificados com tipos da vida
pública de nosso país e do dia-a-dia de qualquer brasileiro, “a
burocracia, a corrupção, o descaso e o abuso de poder, a ‘dança das
cadeiras’ da fila de idosos no banco, o atendimento público aos
pacientes com dengue, a madrugada de plantão pela matrícula escolar
do filho, ou mesmo a luta de resistência em se fazer cultura”, como
lembra José Henrique.
“Há
estudiosos que apontam o caráter ‘premonitório’ de Kafka, ao ter
‘antecipado’ muitas das atrocidades que o século 20 testemunhou,
como o nazismo e o comunismo. O Processo é uma sátira escrita
para o seu tempo, e a sua atualidade se deve à permanência de
absurdos da sociedade moderna, em regimes explicitamente
totalitários, onde há supressão dos direitos individuais, ou nas
democracias, onde sistemas burocráticos fazem o jogo dos poderosos
por trás de uma fachada de organização", conta o diretor.
Para Silvia Monte, “o texto é
de uma inteligência fantástica e de uma atualidade apavorante. Tudo
regado com um humor ácido, que nos faz pensar sobre o desamparo, a
incomunicabilidade e o pavor do ser humano nesta sociedade farsesca
composta de vários tipos de espectros e bufões. A história de Josef
K. nos aproxima ainda da realidade kafkiana brasileira. Em nosso
país, infelizmente, a grande maioria nasce, vive e morre ‘como um
cão’, sem direito a absolutamente nada. Todos nos tornamos Josef K.,
em busca do ‘nosso processo’, da razão para a nossa existência. Onde
foi que erramos? Que mundo é este, onde a deformidade,
a perversão, a escuridão e a mentira imperam? ‘Qual é o nosso
crime?’”, conclui.
Sobre o Diretor
José
Henrique
Diretor e
professor universitário, José Henrique dirigiu O Bilontra,
de Arthur Azevedo (2009), O Processo, de Franz Kafka
(2008), As Eruditas, de Molière, (2007/2008); A Pane,
de Friedrich Dürrenmatt (2006/2008); O Urso, de Anton
Tchecov (1999); Duas vezes 3, duas peças curtas de Giovanni
Verga (1992); Diálogos das Carmelitas (1993), de Georges
Bernanos; A Mandrágora, de Maquiavel (1990-1992), além de
outros espetáculos de teatro adulto e infantil, ópera e leituras
dramatizadas. É diretor artístico do Teatro na Justiça
(1999-2009), promovido pelo Departamento Cultural da EMERJ. No
âmbito acadêmico, dirigiu óperas na Escola de Música da UFRJ e uma
produção da tragédia Ifigênia em Áulis, de Eurípides, nos
Estados Unidos. É professor do Curso de Direção Teatral da Escola de
Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ)
desde 1993, onde leciona as disciplinas História da Arte, Direção e
Iluminação. É diretor técnico da Mostra de Teatro da UFRJ, que
acontece anualmente desde 2001 e membro, desde 1996, do United
States Institute for Theatre Technology (USITT/EUA) e da Association
for Theatre in Higher Education (ATHE/EUA), além de membro-fundador
da Associação Brasileira de Iluminação Cênica (ABrIC) e do centro
nacional da OISTAT (Organização Internacional de Cenógrafos,
Técnicos e Arquitetos de Teatro).
Sobre Franz Kafka
Franz Kafka nasceu em Praga,
1883, filho de pais judeus. Sua infância e juventude foram marcadas
pela figura opressora do pai, comerciante bem sucedido, que nunca
aceitou os dons literários do filho. A relação de submissão e
sentimento de inferioridade de Kafka à figura paterna deixaram
marcas irreparáveis em sua vida emocional, que se refletiram em sua
obra. De 1901 a 1906, Kafka estudou Direito na Universidade de
Praga, onde conheceu seu grande amigo e posterior biógrafo, Max Brod.
Depois de formado, Kafka passou a trabalhar numa companhia de
seguros como inspetor de acidentes de trabalho. Apesar de bem
sucedido, Kafka sentia imensa angústia e insatisfação por ter que
trabalhar em algo que lhe roubava tempo e dedicação à sua grande
paixão: a escrita. A partir de 1917, após ter contraído tuberculose,
Kafka afasta-se por diversas vezes do emprego, acabando por
abandoná-lo definitivamente em 1922. Viveu seus últimos meses em
Berlim e morreu em 3 de junho de 1924, em Kierling, na Áustria.
Algumas das suas obras mais
relevantes foram publicadas em vida, como A Metamorfose,
Um Médido Rural, O Veredicto e Na Colônia Penal.
Já Um Artista da Fome teve suas provas revisadas pelo autor
pouco antes de morrer, tendo sido publicada logo depois. Outras
obras-primas como O Processo, O Castelo, O
Desaparecido ganharam edições póstumas, organizadas por Max Brod.
Kafka havia pedido a Brod que seus escritos inéditos fossem
queimados após sua morte. Mas, contrariando o desejo do amigo, Brod
publicou não só os romances incompletos e textos em prosa, como
também a correspondência pessoal e diários do escritor. Brod teve
contato com os manuscritos de O Processo em 1920, antes da
morte de Kafka. Recebeu os originais divididos em capítulos, como
Kafka o dividira, mas sem ordenação alguma. Já naquela época foi o
próprio Brod que, seguindo sua intuição e a partir das conversas com
o amigo sobre o romance, ordenou esses capítulos. Diversos
estudiosos da obra de Kafka questionam e não concordam com a ordem
apresentada por Brod.
Para roteiro:
O
Processo – Estréia dia 21 de março, às 21 horas, no
Teatro do SESC Santana. Sábados às 21h e domingos às 19h30.
Temporada até 19 de abril. Com: Tuca Andrada, Sílvia Monte,
Roberto Lobo, Mariana Olivieira, Alexandre Mofati, Antonio Alves,
Paula Valente, Roberto Lobo, Rogério Freitas, Thaís Tedesco.
Autor: Franz Kafka. Tradução do romance original: Modesto
Carone. Direção e adaptação: José Henrique. Cenário:
Hélio Eichbauer. Figurinos e adereços: Daniela Vidal.
Direção de Produção São Paulo: Fernanda Signorini. Direção
Geral de Produção: Sílvia Monte. Produção: José Henrique
e Sílvia Monte. Realização: SESC SP. Duração: 1h50.
Indicação etária: 14 anos. Ingressos – R$5,00
(trabalhador no comércio de bens e serviços matriculados no SESC e
dependentes); R$10,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +
60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino);
R$20,00 (inteira), à venda pelo Sistema INGRESSO SESC em todas as
unidades.
TEATRO
DO SESC SANTANA – Av. Luiz Dumont Villares, 579 – Santana. Fone:
(11) 2971-8700. Capacidade do Teatro – 349 lugares.
Bilheteria – de terça a sexta-feira das 13 às 21 horas; sábados
das 10 às 21 horas e domingos e feriados das 10 às 19 horas. Aceita
dinheiro, cheque e cartão de crédito Visa, MasterCard e Amex.
Ar-condicionado. Acesso para deficientes físicos. Estacionamento
no próprio SESC – R$ 3,50 pelo período de uma hora + R$ 0,50 por
hora adicional. (trabalhador no comércio e serviços matriculados e
dependentes) / R$ 7,00 pelo período de uma hora + R$ 1,00 por hora
adicional (demais usuários).
www.sescsp.org.br
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